Festas da Bahia


01/07/2010


O DOIS DE JULHO E O PATRIOTISMO BAIANO



A comemoração que ocorre em dois de julho, na Bahia, é uma grande festa que resgata uma importante passagem da História nacional. Foi nesse dia, do ano de 1823, que se deu a entrada das tropas libertadoras brasileiras, ou Exército Pacificador, pela estrada das Boiadas (hoje Estrada da Liberdade), na Cidade de Salvador, cuja ocupação era feita pelos portugueses.



Desse feito, Salvador foi reconquistada pelo exército brasileiro e, além disso, foram alcançadas a liberdade e a vitória sobre o exército lusitano. Uma abordagem sobre a guerra, que consumiu recursos, vidas e sossegos na província é feita por Melo Morais Filho:



Nada existe de mais lúgubre do que o frontispício da Liberdade. ao fita-lo, a vista maravilha-se diante de residências desesperadas, de corpos baleados que se ergue a meio e tombam no chão ensangüentado, de membros mutilados sob a roda pesada das carretas, de corcéis que pulam sem dono por sobre montões de cadáveres, até que lá, na extrema, ao marche-marche dos batalhões, ao disparar da fuzilaria, uma bandeira rota fluctua, em sinistra muralha negra fortificação, arvorada pelo vencedor que, tendo na mão a espada, agita aos quatro ventos o estandarte victorioso, parecendo, na animação feroz levantar vivas á Pátria e a Liberdade. (FILHO, 1946, p. 111)



O seu caráter de evento cívico e de data magna na Bahia se deve por representar nossa Independência constituindo, assim, um ciclo de festas, que são celebradas em homenagem às tropas do Exército e da Marinha Brasileiros que, por meio de fortes lutas, conseguiu separar-se definitivamente dos domínios de Portugal.



Pode- se dividir esse momento histórico em duas fases: a primeira onde as operações de guerra seguiram iniciativas locais sob controle geral do Conselho Interino, comandado pelo Coronel Miliciano Santinho, por Joaquim Pires de Carvalho e por Albuquerque de Ávila Pereira, que seria depois O Visconde de Pirajá; e uma segunda fase comandada pelo General Pedro Labatut, no período entre junho e outubro de 1822, fazendo surgir diversos batalhões, comandados pelo proprietário capitão Antônio de Bittencourt Berenguer César e outros comandantes. Foi em um desses batalhões que participou Maria Quitéria, escrevendo seu nome na história da história da Bahia.



Foi preciso uma série de choques bélicos para que a ideologia da Independência da Bahia alcançasse êxito. Ocorreu, dentre eles, os mais importantes da história, como a batalha de Pirajá (na área de Cabrito ? Campinas ? Pirajá), As Posições do Exército Brasileiro, a Deposição de General Labatut, e por fim a Libertação da Bahia.



O Dois de Julho ficou na reverência patriótica dos baianos, que desde então passaram a cumprir uma tradição de comemorá-lo anualmente, com a repetição do percurso feito pelo exército pacificador da cidade, como aborda Tavares:



No dia dois de julho de 1823 entrou na cidade de Salvador o exército brasileiro. Veio uma parte pela estrada das Boaiadas (Liberdade) passando pela Lapinha e Soledade, alcançando o Santo Antônio, Carmo, Pelourinho, Terreiro de Jesus, Sé e Praça da Câmara (Praça Municipal). (1987, p.136)



À tarde, após o Te Deum (que trata-se de uma cerimônia que segue a tradição religiosa, desde 1823 e em latim significa "A Vós, Ó Deus, Louvamos e Agradecemos".)o cortejo sai novamente depois de uma parada para que autoridades políticas se pronunciem, e para que o povo contemple a figura dos caboclos. A chegada do caboclo no campo grande é saudada com palmas, bandas de música, discursos de autoridades e celebridades. Desse modo, recorremos a Jorge Amado que define exemplarmente esta dinâmica:



(...) à tarde o cortejo segue rumo ao Campo Grande, onde no momento há uma cerimônia cívica em homenagem ao caboclo, é um dia alegre, muito baiano na sua jovialidade e no seu culto á liberdade. Ha um verso muito repetido sobre o Dois de Julho que diz que o sol de Dois de Julho brilha mais que o de primeiro, verdade, porém é que quase sempre chove. (1981, p.157)



Hildegardes Viana faz uma análise do evento após a chegada no Campo Grande:

A base do monumento aos heróis do Dois de Julho, replica do caboclo, inaugurado em 1895 em memória do grande feito, o governador dirige-se ao povo, enquanto os ?emblemas? são colocados em pavilhões adrede preparados. Há uma festa no campo grande, ate o dia 05, quando se realiza a ?Volta dos Caboclos? para a Lapinha, desfile exclusivamente popular. Os festejos se encerram com uma romaria cívica ao Panteon de Pirajá falando um orador designado pelo instituto histórico.(HIDELGARDES, 1983, p. 35)



As figuras simbólicas do Caboclo e da Cabocla foram incorporadas ao cortejo junto com bandos representando os batalhões patrióticos que lutaram pela independência da Bahia. Acompanham o cortejo ainda grupos colegiais, associações de moradores, agremiações e forças militares. Usa-se cores que representam as utilizadas na bandeira do Brasil e da Bahia, num sinal de nacionalidade, assim como nos bairros onde o cortejo passa pela maioria das residências e comércios que enfeitam suas fachadas com bandeirolas verdes e amarelas, ou vermelhas e azuis, flores ou palhas. Nas ruas vê-se crianças e populares fantasiados de vaqueiros, índios ou de personagens que compuseram a história da festa, dando-lhe assim uma característica única de comemoração cívica e ao mesmo tempo folclórica.



Hoje, a festa de dois de julho, perdeu um pouco das características originas, como a presença dos bandos anunciadores e o uso de roupas brancas pelos populares, (com exceção dos puxadores dos carros emblemáticos). Por outro lado, mantém-se ainda a ornamentação das ruas da lapinha até o terreiro de Jesus com enfeites nas casas e todo tipo de adorno que embeleze a comemoração. A festa, com o tempo, transformou-se num momento cívico e de protestos sociais e políticos. Alguns grupos questionam e reivindicam seus direitos políticos, fazem pomposos discurso, uma vez que o dois de julho é um momento em que se pode unir as questões cívicas e de cunho libertário já que todos desfrutam juntos dessa grande festa. Recorremos a Wlamyra, que faz uma abordagem política do cortejo:



Esta diversidade de formas celebrativas, contemplando grupos sociais distintos, demonstrava que o Dois de Julho, era reconhecidamente um evento importante no calendário estivo da cidade. Afinal a comemoração da independência na Bahia proporcionava a diversão. Festejar a vitória dos brasileiros sobre os portugueses significava entretenimento nos sofisticados parques armados no campo grande, nas barracas de jogos, nos saraus dançantes, nos bailes populares e rodas de samba. (Wlamyra, 2006 p. 128)



O orgulho de nosso passado ainda hoje ameniza os problemas sociais existentes em nossa cidade. A festa, além de seu caráter cultural e histórico, reúne elementos que podem ser transformados e utilizados com propriedade pela atividade turística. Neste caso, faz-se necessária a divulgação deste festejo em nível nacional, já que o dois de julho reúne fatores importantes a serem refletidos por toda a população brasileira como: o que é programado e o que é espontâneo em comemorações como esta, eruditos e pessoas simples convivendo harmoniosamente e, sobretudo, como as pessoas podem encontrar sua identidade por meio de uma afirmação sócio-cultural espelhada em uma festa feita pelo povo e para o povo.




Textos e Fotos: Ana Carla Nunes (festasdabahia@festasdabahia.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (www.quartetoemcyeafins.blogspot.com)
Agradecimentos Especias: Raquel Avila (Registros históricos do cortejo)

LEITURAS RECOMENDADAS:

ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945.

DICAS para ver o desfile do caboclo. A Tarde, Salvador, 01 jun. 2008, p.8
LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.

VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.

VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.

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06/06/2010


A ORIGEM E AS FESTAS DO BAIRRO DO SANTO ANTONIO ALÉM DO CARMO



O bairro de Santo Antônio Além do Carmo traz no nome a ideia do crescimento urbano da Cidade, pois foi construído para além das Portas do Carmo. Na época da chegada dos primeiros Carmelitas Descalços à Bahia que se instalaram no Monte Calvário, em 1586, o bairro era conhecido como Portas de Santa Catharina.



O bairro de Santo Antonio é um dos bairros mais tradicionais, com um rico conjunto arquitetônico composto por igrejas, forte e lindos casarios de estilo barroco. A resistência dos antigos moradores em permanecer no local contribuiu para manter em boas condições os imóveis que integram o sítio histórico de Salvador, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), como patrimônio da Humanidade. Suas ruas revelam características de séculos passados e seus casarões nos contam uma parte da história da Bahia que precisa ser redescoberta e incluída nos livros e roteiros turísticos de visitação à cidade, para que possa haver um resgate de sua memória e esta memória ser transmitida às futuras gerações.



Todos os lugares no bairro guardam lembranças das épocas da História do Estado. O Forte, por exemplo, foi edificado em 1625 em homenagem ao negro Antonio que combateu sozinho, a pedradas, as tropas de Maurício de Nassau evitando a exploração Holandesa (1624). Por consequência deste ato, o Padre Antonio Vieira pregou um de seus sermões (1638) à beira de suas trincheiras. O mesmo lugar serviu de presídio para negros malês (em 1835), e foi, inclusive, local de nascimento do ator Xisto Bahia (1841).



Outro patrimônio que merece destaque por sua riqueza arquitetônica e artística é a Igreja de Nossa Senhora do Carmo que possui uma fachada do século XVII e seu interior é ricamente trabalhado em talha dourada. A Igreja, além de contar com belíssimos detalhes em sua estrutura, abriga um acervo com obras sacras de rara beleza.



Já no Pequeno Largo criado na Rua Direta, hoje muito freqüentado pela população devido aos bares ali instalados, encontramos o monumento da Cruz do Pascoal, que data de 1743. Esse monumento foi erguido em devoção à Nossa Senhora do Pilar pelo antigo morador do bairro Pascoal Marques, cuja imagem foi roubada há anos. Outra prova de devoção popular são os nomes curiosos dados às Ruas: Travessa dos Perdões, Largo do Santo Antonio, Beco do Padre Bento, entre outros. Edison Carneiro registra essa intervenção da religião na formação da cidade de Salvador como ?um sinal da extrema beatice da época.?



As igrejas do Boqueirão, datadas do século XVIII, e a simplicidade barroca da Igreja do Santo Antonio Além do Carmo, situada no Largo do Triunfo, dão um contraste especial ao bairro. A Igreja da Venerável Ordem Terceira do Carmo, construída em 1632, possui história interessante. Ela pegou fogo em 1788 e sobre as cinzas ergueu-se outra igreja, em estilo neoclássico, concluída em 1884. Portanto, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo que se conhece hoje, não é a mesma em estilo arquitetônico e artístico de sua primeira versão.



Por meio das histórias que envolvem o patrimônio arquitetônico da Bahia, voltamos às origens das festas brasileiras, em especial das Festas baianas, que têm em sua gênese as heranças das culturas portuguesas, indígenas e africanas, modificadas para atender a realidade social da época.



Com o crescimento das ordens religiosas e ordens terceiras de diferentes vertentes, os grupos sociais foram se ampliando em torno das atividades da igreja, refletindo na constituição de diversas camadas sociais e culturais dentro dos limites das ordens religiosas. Luiz Eduardo Dorea traça um panorama sucinto deste período no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, hoje um dos espaços de maior especulação imobiliária da Cidade devido aos importantes fatos históricos que ocorreram no bairro:



As ordens terceiras do Carmo e de São Francisco agrupavam os moradores ricos da Cidade. Toda a vida social se desenvolvia em torno das atividades da Igreja. Eram prisões, missas, grandes funerais, festas religiosas, quermesses, etc.? (Dorea, 2006 p. 57)

Sobre as festas religiosas do bairro destacam-se os Festejos do Divino, que tiveram origem em Portugal, por volta de 1450, com a criação de Irmandades. Estes festejos alastraram-se por todos os países colonizados por Portugal. A Festa de Santo Antonio datada de 1231, também encontra sua origem em Portugal. Já a Festa cívica de Dois de Julho, que representa o início da Independência do Brasil, acontece com a organização de um cortejo popular que sobe a Ladeira do Boqueirão, e conta com a participação de pessoas vindas das mais diversas cidades do Estado. Sobre tais tradições, festejos e beleza da cultura popular na Bahia, recorremos a Zilda Paim, folclorista do Recôncavo baiano:



... que define que a arte popular nasce acidentalmente em todas as terras, todos os povos. As coisas populares são simples e belas, dispensam adornos ou complementos que as façam realçar, quanto mais simples, mais belo, quanto mais belo mais puro, através do sentimento popular vamos refletir a vida de um povo, os costumes, de uma raça, a história de um povoado, vila, cidade, estado ou nação. (1999, p. 15)



Em contrapartida, uma outra abordagem épica é realizada por Hildegardes Viana quando enfatiza a importância cultural das festas anuais da Cidade:



Naquele tempo, os meses se distinguiam também por certas coisas. Deixando de lado Dezembro, janeiro e fevereiro que constituíam o ?tempo de festas? março era das grandes marés, abril das chuvas mil, maio das flores, junho das chuvas, julho do frio, agosto das ventanias, setembro das primaveras, outubro das trovoadas, novembro das almas. (Viana apud Oliveira, 2005, p. 7)



Dessa maneira, compreendemos que nosso povo, alegre e hospitaleiro está impregnado de heranças e legados culturais representados em nossos festejos religiosos, sagrados, profanos, culturais ou cívicos. Essas manifestações culturais populares reavivam parte de nosso passado e permitem que nossa história continue sendo escrita por pessoas de todos os tempos e etnias garantindo, assim, a manutenção da Cultura popular baiana.



Esse constante reescrever da história faz com que festejos como a Trezena de Santo Antonio, A festa do Divino Espírito Santo, o Cortejo Cívico do Dois de Julho e tantos outros eventos ocorridos nos demais bairros e Cidades do Estado tenham sua memória preservada e sua identidade repassada com verdade. Mais do que conhecer a cultura de um povo, é necessário senti-la. É este sentir da cultura que permite preservar e repassar a sua riqueza de dados capazes de reconstruir sempre a história de forma contextualizada e consciente.



Assim, verificamos que vale à pena conhecer o bairro de Santo Antonio e desfrutar do bucolismo e da História imortalizada, seja por meio dos seus casarões e Igrejas datados de séculos passados, seja por meio das narrativas dos seus moradores mais antigos. Conhecer e sentir o bairro de Santo Antônio além do Carmo é mergulhar nas importantes passagens da História da Bahia.


Texto e Fotos por: Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (www.quartetoemcyeafins.blogspot.com)
Agradecimentos Especiais: Mayara Brandão, Raquel Ávila, Irmandades do Bairro, Tereza Duque, Ronaldo Macêdo, Ana Paula Ribeiro, Lúcio Mendes, e aos Mestres Sebastião Heber, Eny Kleide e Zilda Paim.


LEITURAS RECOMENDADAS:

ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945.

ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo: Brasiliense, 2004.
VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.

VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.

PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274

Pithon, Mons. Gilberto Sampaio. A Vida de Santo Antônio e a sua paróquia Além do Carmo, 1ed. Salvador. Bureau, 1998, 351p

QUERINO, Manuel. A Bahia de Outrora. 3 ed. Salvador: Progresso, 1955. 348 p.

NASCIMENTO, Anna Amélia Vieira. Dez Freguesias da Cidade do Salvador. Salvador, EDUFBA, 1989.

CARNEIRO, Edson. A Cidade do Salvador: (1549) uma reconstituição histórica. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1954.

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02/05/2010


O SOM DEFINITIVO DO QUARTETO EM CY "PATRIMÔNIO DA MÚSICA BAIANA"


?Essas meninas vão longe.? Foi o que o cantor e compositor Sérgio Ricardo disse quando visitou os estúdios da gravadora Forma, em 1964, e lá estava o recém formado Quarteto em Cy gravando seu primeiro disco. Mas longe de ser uma premonição, Sérgio Ricardo só constatou o que as quatro cantoras apresentavam: vozes extremamente afinadas, sensibilidade musical, dedicação e muita, mas muita vontade de aprender. Todos esses ingredientes, somados a uma boa dose de persistência e a pitadas generosas de amor à Música Brasileira, fizeram com que o Quarteto em Cy chegasse, neste ano de 2009, aos seus 45 anos de carreira.



O grupo foi batizado de Quarteto em Cy pelo amigo e incentivador de sua formação, Vinicius de Moraes e seu parceiro Carlos Lyra, aproveitando a primeira sílaba dos nomes de suas integrantes ? Cyva, Cybele, Cynara e Cylene ? e fazendo uma alusão à sétima nota da escala musical. O nome Quarteto em Cy deu às meninas o start para trilharem seu caminho na música e, no dia 30 de junho de 1964, estrearam na boate carioca Bottle?s, no Beco das Garrafas, ponto de encontro do pessoal da Bossa Nova. Depois da estréia, o grupo nunca mais parou. Ainda em 1964 gravaram seu primeiro disco, Quarteto em Cy, pela gravadora Forma, que foi considerado o grande lançamento do ano. No ano seguinte, fizeram parte do show histórico, Vinícius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy e o conjunto Oscar Castro Neves, produzido por Aloysio de Oliveira, que reuniu, pela primeira vez no palco, Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi.



Com formações diferentes nesses 45 anos de estrada, o Quarteto em Cy nunca perdeu sua qualidade e coerência musical. Com a saída de Cylene, em 1966, o grupo contou com a participação de outras cantoras, como Regina Werneck, Semíramis, Sandra, Dorinha Tapajós e Sonya que escreveram, cada qual com o seu talento, um capítulo da história do Quarteto. Desde 1980, a formação mantém-se a mesma, com Cyva, Cybele, Cynara e Sonya.



Nesses muitos capítulos de história em Cy, elas tiveram que abrir trincheiras com sua arte para seguirem em frente. Nos anos de 1960 e 1970, o Quarteto viu, parafraseando Drummond, uma grande pedra no meio do caminho: a ditadura militar. Conta Cynara que o grupo foi proibido de cantar O Ronco da Cuíca, de João Bosco e Aldir Blanc, no show Resistindo, de 1976: ?Na hora em que tínhamos de cantar a música, nós virávamos as costas pro público e cruzávamos os braços para trás, como se estivéssemos algemadas. A banda tocava a música sem a letra e o público veio abaixo de tanto aplaudir.? É essa força do Quarteto em Cy que conseguiu vencer a ditadura militar, a crise da indústria fonográfica dos anos 1990 e que vem driblando a grande massificação da música brasileira.



Apesar da dificuldade em conseguir apoios e patrocínios, o Quarteto em Cy não desanima. Em comemoração aos mais de 40 anos do grupo, foi lançado, em 2008, em uma associação da produtora Filmação com a distribuidora NEO, um show especial gravado em DVD, intitulado Vinícius & Caymmi em Cy, em homenagem à Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi. O show faz alusão ao já citado espetáculo realizado na boate Zum Zum, em 1965. Este trabalho recém lançado traz ainda curiosidades de bastidores, histórias de vida do grupo e arranjos novíssimos para canções como Tarde em Itapuã, Vatapá e Samba da Bênção. Além desse trabalho, uma biografia do grupo está para ser lançada, necessitando apenas do apoio de editoras ou parceiros interessados em viabilizar o projeto.



A grande luta de artistas, como o Quarteto em Cy, está em conseguir espaço no mercado fonográfico brasileiro e nos veículos de comunicação em geral que, ultimamente, têm-se fechado a determinados segmentos artísticos e simplesmente ignorado os demais. O mais paradoxal é que enquanto o mercado brasileiro segue essa filosofia partidarista, outros países dão o devido valor à nossa música. O Quarteto em Cy teve sua discografia lançada em CD, no Japão e tem feito, constantemente, shows no exterior, inclusive, este ano, o grupo fez uma temporada de grande sucesso, no Chile e na Argentina, ao lado de Toquinho. Só está faltando mesmo o Brasil dar crédito as suas riquezas. Mauricio Tapajós e Aldir Blanc seguem cada vez mais atuais: ?O Brazil não conhece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil.?.

* Texto escrito por Ana Carla Nunes e Beatriz Badim de Campos.

http://www.quartetoemcy.com.br/trailer2.html

Contatos Quarteto em Cy:
Cynara Faria : 21-24934642 e 99121466
E-mail: cynara.faria@globo.com
www.quartetoemcy.com.br

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04/03/2010


ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE LEGADO CULTURAL

As discussões que estão sendo criadas em torno da proteção ao patrimônio imaterial é muito positiva porque a atividade turística novamente beneficia-se deste olhar “preservacionista” por parte de diversas instituições, e o Turismo com Base no Legado Cultural começa a figurar como outra alternativa dentro das atividades do Turismo Cultural. Para defini-lo recorremos a Barreto:

 

Na língua inglesa, existe a possibilidade de ampliar o conceito de turismo histórico, para a expressão heritage based tourism, que deve ser traduzida como: ”turismo com base no legado cultural”, mas que pode ser simplificada para “turismo de tradição” embora tradição e herança cultural não seja exatamente a mesma coisa, O turismo com base no legado cultural é aquele que tem como principal atrativo o patrimônio cultural. (BARRETO, 2001, p. 29)

 

Para isso é necessário que os bens tombados ou não tombados possuam características que sejam relevantes para a história e cultura da localidade em que estão inseridos. Na cultura patrimonial material destacamos o patrimônio arquitetônico e peças de museus; já em relação à cultura de preservação do patrimônio imaterial podemos considerar a dança, a culinária, os hábitos nas vestimentas, a literatura, a medicina caseira, valores que, de um modo geral, não foram institucionalizados.

Assim fica claro que todo legado cultural institucionalizado, ou sem a noção de interpretação de patrimônio adequada, pode vir a perder suas características, fazendo com que a comunidade não o considere ou não se identifique com este bem. Essa não preocupação com a preservação dos bens materiais ou imateriais é prejudicial ao turismo cultural e à continuidade do legado cultural, uma vez que se coloca em risco a permanência desse legado. Novamente recorremos à Murta que nos mostra a importância da Interpretação do patrimônio:

 

A interpretação do patrimônio tem o cuidado e a sensibilidade, para que as diversas formas de manifestações, seja materiais ou imateriais, não seja transformadas em “espetáculo para turista” perdendo assim a referencia com a comunidade, com a historia, e a identidade cultural do lugar, pois, mais que informar, interpretar é revelar significados, é provocar emoções, é estimular a curiosidade, é entreter, é inspirar novas atitudes no visitante, é provar uma experiência inesquecível com qualidade. (MURTA, 2002 apud REJANE MIRA, ANO, p. 18,)

 

Desse modo, compreendemos que a manutenção da Cultura Popular de qualquer nação só é mantida e transmitida para as futuras gerações se a preocupação com a preservação e a interpretação do patrimônio estiver aliada às políticas públicas voltadas a favor do resgate e da revitalização dos bens. Concomitantemente a planejamentos bem elaborados, estas estratégias podem ser uma forma de assegurar a existência dos legados culturais em cada comunidade e, como consequência, estas comunidades terão sua memória coletiva preservada, como comenta Edith Brown Weiss:

 

As futuras gerações podem ser privadas de uma nova informação importante a respeito do valor de certos recursos naturais, em particular animais ou plantas, ou do funcionamento de sistemas políticos, sociais e econômicos, incluindo arquivos e registros históricos sobre línguas, trabalhos de arte, composições musicais, trabalhos literários, tesouros arquitetônicos e monumentos. (WEISS, 1998 p.28)

 

Logo, percebemos que a Interpretação do patrimônio aliada a estratégias eficientes garante que novos roteiros para desenvolvimento do turismo em determinadas localidades possibilite que a nação reconheça sua origem e sua formação antropológica, além de toda sua história e importância. Por meio destes bens, materiais e imateriais de nossa cultura popular, os legados culturais são transmitidos de geração para geração e são recriados constantemente pelas comunidades, contribuindo assim para preservar a identidade de grupos, estabelecer a diversidade cultural dos povos e da criatividade humana.

 

Há uma semelhança nos conceitos de Patrimônio imaterial e legado cultural, pois ambos têm suas raízes fincadas no campo da oralidade, das tradições e vivências dos povos. O significado de Legado Cultural, porém, é mais amplo, porque abrange todo patrimônio (material e imaterial) da cultura que herdamos do passado e que permanece, no decorrer do tempo, por meio de nossa memória coletiva. Já o conceito de Patrimônio Imaterial da Cultura restringe-se às tradições de um povo e é apresentado pelo Ministério da Cultura, que avalia:

 

Definido como o conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte integrante de sua cultura. Uma de suas principais características é o fato de tradicionalmente ser transmitido de geração a geração, gerando sentimento de identidade e continuidade em grupos populacionais. São exemplos de patrimônio imaterial as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e tradições (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2005)

 

Este acúmulo de culturas existentes permite que o legado permaneça rico em suas tradições (patrimônios imateriais) e possibilita a manutenção dos povos e dos seus costumes para reconhecimento da identidade do povo no presente e no futuro de toda a sociedade.

 

A transmissão deste legado cultural, no entanto, só pode ser feita quando há uma seleção consciente do que se deseja. É necessário estimular os povos para que mantenham e defendam sua cultura, e a eficácia desse processo ocorre quando se consegue que os povos atribuam aos seus legados valores de apreço porque, nem sempre, o que é tido como patrimônio num determinado contexto cultural, social ou histórico é digno de ser legado às futuras gerações. Este processo simbólico de definir o que é possível ser transmitido é que permitirá a identificação destes legados, como verifica Funari:

 

A Construção do patrimônio cultural é um ato que depende das concepções, que cada época tem a respeito do que, para quem, e porque preservar. A preservação resulta, por isso, da negociação possível, entre os diversos setores sociais, envolvendo cidadãos e poder público. O significado atribuído ao patrimônio, também se modifica, segundo as circunstancias de momento.(FUNARI, 2001, p. 16)

 

Partindo deste raciocínio, compreendemos que legado são todos os elementos que permitem traços, identidade de um determinado grupo e o que o diferencia dos demais. De acordo com Chauí o legado tem sua base fundamentada na memória individual e coletiva:

 

Memória é definida como a evocação do passado, e a sua atualização, conservando na lembrança o que se foi. Para além da memória individual, inserida na dimensão pessoal, há a memória, coletiva ou pessoal, registrada nos documentos, relatos e produtos de uma sociedade. (CHAUÍ, 1996, p. 125-128)

 

Percebe-se que as evoluções sociais, culturais e as transformações sofridas nas sociedades modernas e até primitivas por conta de uma série de acontecimentos históricos, fizeram com que os legados ou a memória coletiva, se tornassem transmissões culturais entre os seres, por meio de vínculos com o seu passado permitindo, assim, o resgate de nossa identidade.

 

 

À medida que a manutenção das características é repassada do passado para o futuro sem sofrer nenhuma interferência ou alteração, os valores culturais são mantidos. É por isso que é tão importante garantir a conservação destas marcas do nosso passado. Logo, a revitalização de patrimônios ou o resgate destes legados culturais, se bem realizados, permitem aguçar a memória coletiva e esta, segundo Barreto: “Desencadeia, o processo de identificação do cidadão com sua história e sua cultura.”

 

No entanto, a transformação do legado cultural em bens de consumo, sobretudo com a intervenção do turismo cultural implantado em algumas cidades não desenvolvidas para a atividade ou para a própria interpretação de seus patrimônios, passou a ser discutida e isso possibilitou o surgimento de leis e regimentos que garantissem a manutenção destes bens para assegurar a manutenção de povos e culturas.

 

A atividade turística, entretanto, apodera-se deste fator e desta nova motivação trazida pelo Turismo Cultural e transforma o legado cultural num produto a ser apresentado para o novo visitante em busca de cultura, enriquecimento e experiências diferentes.  Essa busca trazida por uma nova demanda vem chamando a atenção para a revitalização de particularidades das culturas que nem sempre são percebidas e, nesta troca, a economia das localidades é beneficiada assim como a preservação dos produtos culturais. O que não podemos permitir é a banalização da cultura, pois, segundo Barreto: “O patrimônio deixa de ser valioso por sua significação, na história ou na identidade local, e passa a ser valioso porque pode ser vendido.”

Escrito por Ana Carla Nunes às 19h53
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10/02/2010


TURISMO E LEGADO CULTURAL




As discussões que estão sendo criadas em torno da proteção ao patrimônio imaterial é muito positiva porque a atividade turística novamente beneficia-se deste olhar ?preservacionista? por parte de diversas instituições, e o Turismo com Base no Legado Cultural começa a figurar como outra alternativa dentro das atividades do Turismo Cultural. Para defini-lo recorremos a Barreto:

Na língua inglesa, existe a possibilidade de ampliar o conceito de turismo histórico, para a expressão heritage based tourism, que deve ser traduzida como: ?turismo com base no legado cultural?, mas que pode ser simplificada para ?turismo de tradição? embora tradição e herança cultural não seja exatamente a mesma coisa, O turismo com base no legado cultural é aquele que tem como principal atrativo o patrimônio cultural. (BARRETO, 2001, p. 29)





Para isso é necessário que os bens tombados ou não tombados possuam características que sejam relevantes para a história e cultura da localidade em que estão inseridos. Na cultura patrimonial material destacamos o patrimônio arquitetônico e peças de museus; já em relação à cultura de preservação do patrimônio imaterial podemos considerar a dança, a culinária, os hábitos nas vestimentas, a literatura, a medicina caseira, valores que, de um modo geral, não foram institucionalizados.
Assim fica claro que todo legado cultural institucionalizado, ou sem a noção de interpretação de patrimônio adequada, pode vir a perder suas características, fazendo com que a comunidade não o considere ou não se identifique com este bem. Essa não preocupação com a preservação dos bens materiais ou imateriais é prejudicial ao turismo cultural e à continuidade do legado cultural, uma vez que se coloca em risco a permanência desse legado. Novamente recorremos à Murta que nos mostra a importância da Interpretação do patrimônio:



A interpretação do patrimônio tem o cuidado e a sensibilidade, para que as diversas formas de manifestações, seja materiais ou imateriais, não seja transformadas em ?espetáculo para turista? perdendo assim a referencia com a comunidade, com a historia, e a identidade cultural do lugar, pois, mais que informar, interpretar é revelar significados, é provocar emoções, é estimular a curiosidade, é entreter, é inspirar novas atitudes no visitante, é provar uma experiência inesquecível com qualidade. (MURTA, 2002 apud REJANE MIRA, ANO, p. 18,)





Desse modo, compreendemos que a manutenção da Cultura Popular de qualquer nação só é mantida e transmitida para as futuras gerações se a preocupação com a preservação e a interpretação do patrimônio estiver aliada às políticas públicas voltadas a favor do resgate e da revitalização dos bens. Concomitantemente a planejamentos bem elaborados, estas estratégias podem ser uma forma de assegurar a existência dos legados culturais em cada comunidade e, como consequência, estas comunidades terão sua memória coletiva preservada, como comenta Edith Brown Weiss:


As futuras gerações podem ser privadas de uma nova informação importante a respeito do valor de certos recursos naturais, em particular animais ou plantas, ou do funcionamento de sistemas políticos, sociais e econômicos, incluindo arquivos e registros históricos sobre línguas, trabalhos de arte, composições musicais, trabalhos literários, tesouros arquitetônicos e monumentos. (WEISS, 1998 p.28)




Logo, percebemos que a Interpretação do patrimônio aliada a estratégias eficientes garante que novos roteiros para desenvolvimento do turismo em determinadas localidades possibilite que a nação reconheça sua origem e sua formação antropológica, além de toda sua história e importância. Por meio destes bens, materiais e imateriais de nossa cultura popular, os legados culturais são transmitidos de geração para geração e são recriados constantemente pelas comunidades, contribuindo assim para preservar a identidade de grupos, estabelecer a diversidade cultural dos povos e da criatividade humana.





Há uma semelhança nos conceitos de Patrimônio imaterial e legado cultural, pois ambos têm suas raízes fincadas no campo da oralidade, das tradições e vivências dos povos. O significado de Legado Cultural, porém, é mais amplo, porque abrange todo patrimônio (material e imaterial) da cultura que herdamos do passado e que permanece, no decorrer do tempo, por meio de nossa memória coletiva. Já o conceito de Patrimônio Imaterial da Cultura restringe-se às tradições de um povo e é apresentado pelo Ministério da Cultura, que avalia:


Definido como o conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte integrante de sua cultura. Uma de suas principais características é o fato de tradicionalmente ser transmitido de geração a geração, gerando sentimento de identidade e continuidade em grupos populacionais. São exemplos de patrimônio imaterial as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e tradições (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2005)




Este acúmulo de culturas existentes permite que o legado permaneça rico em suas tradições (patrimônios imateriais) e possibilita a manutenção dos povos e dos seus costumes para reconhecimento da identidade do povo no presente e no futuro de toda a sociedade.



A transmissão deste legado cultural, no entanto, só pode ser feita quando há uma seleção consciente do que se deseja. É necessário estimular os povos para que mantenham e defendam sua cultura, e a eficácia desse processo ocorre quando se consegue que os povos atribuam aos seus legados valores de apreço porque, nem sempre, o que é tido como patrimônio num determinado contexto cultural, social ou histórico é digno de ser legado às futuras gerações. Este processo simbólico de definir o que é possível ser transmitido é que permitirá a identificação destes legados, como verifica Funari:

A Construção do patrimônio cultural é um ato que depende das concepções, que cada época tem a respeito do que, para quem, e porque preservar. A preservação resulta, por isso, da negociação possível, entre os diversos setores sociais, envolvendo cidadãos e poder público. O significado atribuído ao patrimônio, também se modifica, segundo as circunstancias de momento.(FUNARI, 2001, p. 16)



Partindo deste raciocínio, compreendemos que legado são todos os elementos que permitem traços, identidade de um determinado grupo e o que o diferencia dos demais. De acordo com Chauí o legado tem sua base fundamentada na memória individual e coletiva:

Memória é definida como a evocação do passado, e a sua atualização, conservando na lembrança o que se foi. Para além da memória individual, inserida na dimensão pessoal, há a memória, coletiva ou pessoal, registrada nos documentos, relatos e produtos de uma sociedade. (CHAUÍ, 1996, p. 125-128)




Percebe-se que as evoluções sociais, culturais e as transformações sofridas nas sociedades modernas e até primitivas por conta de uma série de acontecimentos históricos, fizeram com que os legados ou a memória coletiva, se tornassem transmissões culturais entre os seres, por meio de vínculos com o seu passado permitindo, assim, o resgate de nossa identidade.




À medida que a manutenção das características é repassada do passado para o futuro sem sofrer nenhuma interferência ou alteração, os valores culturais são mantidos. É por isso que é tão importante garantir a conservação destas marcas do nosso passado. Logo, a revitalização de patrimônios ou o resgate destes legados culturais, se bem realizados, permitem aguçar a memória coletiva e esta, segundo Barreto: ?Desencadeia, o processo de identificação do cidadão com sua história e sua cultura.?




No entanto, a transformação do legado cultural em bens de consumo, sobretudo com a intervenção do turismo cultural implantado em algumas cidades não desenvolvidas para a atividade ou para a própria interpretação de seus patrimônios, passou a ser discutida e isso possibilitou o surgimento de leis e regimentos que garantissem a manutenção destes bens para assegurar a manutenção de povos e culturas.



A atividade turística, entretanto, apodera-se deste fator e desta nova motivação trazida pelo Turismo Cultural e transforma o legado cultural num produto a ser apresentado para o novo visitante em busca de cultura, enriquecimento e experiências diferentes. Essa busca trazida por uma nova demanda vem chamando a atenção para a revitalização de particularidades das culturas que nem sempre são percebidas e, nesta troca, a economia das localidades é beneficiada assim como a preservação dos produtos culturais. O que não podemos permitir é a banalização da cultura, pois, segundo Barreto: ?O patrimônio deixa de ser valioso por sua significação, na história ou na identidade local, e passa a ser valioso porque pode ser vendido.?

* Texto e fotos: Ana Carla Nunes (festasdabahia@festasdabahia.com)
Revisão Geral: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)

LEITURAS RECOMENDADAS:

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945. p

ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo: Brasiliense, 2004.

ARAUJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 3 vols. São Paulo Melhoramentos, 1964.

BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p

CARNEIRO, Edson. Dinâmica do Folclore. São Paulo, Civilização Brasileira, 1965, 188p

COELHO, Teixeira. O que é Indústria Cultural? 8 ed.. São Paulo: Brasiliense, 2003.

DELUQUI, Mônica. Cultura Brasileira e Bens Imateriais. n.8. 2007. Disponível em http://www.fatorbrasis.org/node/42 Acesso em 12/10/2007

MARTINEZ, Socorro, Targino. 2 de Julho: a festa é historia. Salvador: Selo Editorial da Fundação Gregório de Mattos, 2000, 160p.

OLIVEIRA, Waldir Freitas. Santos e Festas de Santos na Bahia. Secretaria de Cultura e Turismo - Conselho Estadual de Cultura, 2005

PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274

PEIXOTO, Afrânio. Breviário da Bahia. 3 ed. Rio de Janeiro: MEC, 1980. 305 p.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. 2ed.. Campinas: Papirus, 2000.

Silva, Elsa Peralta da, Patrimônio e Identidade. Os desafios do turismo cultural, ICSP. UNIVERSIDADE DE LISBOA, 2005.

SILVA, Fernando Fernandes da, O Patrimônio Cultural de Humanidade como tema de Direito Internacional Público. São Paulo: Edusp, 2003. Apostila.

SOUZA, Regina Celeste de Almeida (Org) Turismo Cultural: Novos Desafios. Salvador: UNIFACS 2007 238 p. il

WETHERELL, James. Brasil: apontamentos sobre a Bahia. Salvador: Banco da Bahia, [1972]. 149 p

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16/01/2010


A INTERPRETAÇÃO DOS PATRIMÔNIOS DAS CIDADES



Alguns estudiosos afirmam que a Revolução Industrial e a Segunda Guerra Mundial foram responsáveis pela destruição de diversos monumentos que faziam parte da história de determinados países. Por meio de afirmações desse tipo, é possível verificar que, desde o século passado, as sociedades e governos passaram a ter uma preocupação maior com o patrimônio que conceitualmente tratamos como um conjunto de bens de um determinado território. E, esta preocupação passou a ganhar força na Europa, porque geógrafos, ecologistas e biólogos perceberam que monumentos arquitetônicos milenares estavam ameaçados de deterioração pela quantidade de pessoas que visitavam seu interior.



Com isso, criou-se um interesse maior em preservar para saber interpretar o patrimônio das localidades, garantindo, assim, sua manutenção e continuidade por diversas gerações, a fim de que estes sejam considerados bens patrimoniais de uma nação, como analisa Pelegrinni:

Parece haver uma grande tendência a se considerarem dignos de preservação apenas artefatos (desde pequenos objetos até conjuntos representativos como uma cidade ou parte dela) de épocas passadas; ?coisas velhas? como se diz. Mas no permanente processo cultural em que todos estamos inseridos é importante o registro tanto de facetas passadas, como de atuais. Integrantes do complexo sociocultural. Contendo um valor simbólico no contexto da sociedade em que ocorrem, os traços culturais devem ser tratados e registrados como bens patrimoniais. (2001, p. 95)



O patrimônio das Cidades, no entanto, foi dividido entre Natural e Cultural. Este último passou a ter conceitos mais amplos, na medida em que se foi desenvolvendo o conceito de Cultura.



O patrimônio cultural pode ser material (arquitetura, construções históricas, peças de museus, etc.) e imaterial. Por patrimônio imaterial consideram-se os legados culturais de uma sociedade: todos os hábitos, costumes, crenças, comportamentos, danças, folclores, rituais religiosos, de culinária e artesanato, por exemplo. Por meio desses legados culturais é que a história das nações pode ser contada e transmitida e, não sendo preservadas ou bem interpretadas essas heranças culturais, estas podem vir a perder-se em meio às evoluções sociais, culturais e econômicas que influem no crescimento e na administração das grandes cidades.



Para proteger o patrimônio destas ameaças são necessárias políticas públicas de preservação como, por exemplo, por meio de tombamentos - registro legal de determinado bem que passa a pertencer a um livro de tombo específico dos órgãos nacionais e internacionais responsáveis pela preservação (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural - IPAC, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e Cultura - UNESCO). Uma vez o bem passando por esse processo de tombamento, não poderá sofrer modificações, demolições ou reformas para manutenção de sua identidade e história nas diversas localidades.



Discutir e aprofundar-se em pesquisas voltada a preservação dos patrimônios materiais e imateriais faz-se necessário, sobretudo na Bahia, para que haja uma contribuição maior de todas as ciências sociais nas pesquisas voltadas à história, religiosidade e cultura, especialmente porque nossas crenças configuram grandes espetáculos apresentados aos visitantes por meio da atividade turística, ainda que, em contraposição a isso, seja um fato inegável a extinção de parte das Irmandades religiosas, por meio da qual percebe-se que muito da cultura popular se foi perdendo ao longo dos séculos.

Para que isso não ocorra é imprescindível que discussões e pesquisas aconteçam nas diversas instituições de ensino, mas que essa preocupação também seja dos órgãos públicos e privados que trabalham com a cultura e o turismo das localidades. É preciso que essas instituições envolvam-se nas questões relacionadas à preservação e permitam que aconteçam reflexões sobre a interpretação do patrimônio cultural, histórico e religioso.


Um ponto interessante a ser considerado é a questão da consciência efetiva de estudantes e professores das diversas áreas das Ciências Sociais que têm a possibilidade de imprimir novos olhares ao ambiente por meio de pesquisas, fazendo com que esse envolvimento com a cultura possibilite que o patrimônio material e imaterial das localidades seja mantido. Este olhar de perto, sem dúvida, assegura a preservação da história e da cultura das localidades e, sobretudo, permite que haja uma manutenção sem descaracterização dos legados culturais em prol da continuidade da memória dos povos e das comunidades. Novas pesquisas, real interesse e investimento das instituições públicas e privadas na preservação e manutenção do patrimônio material e imaterial seriam grandes incentivos para aqueles que desconhecem ou não dão o devido valor histórico e cultural ao patrimônio de suas cidades, estados e países.



*Texto e Fotos: Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)

LEITURAS RECOMENDADAS

BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p

COELHO, Teixeira. O que é Indústria Cultural? 8 ed.. São Paulo: Brasiliense, 2003.

DELUQUI, Mônica. Cultura Brasileira e Bens Imateriais. n.8. 2007. Disponível em http://www.fatorbrasis.org/node/42 Acesso em 12/10/2007

PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. 2ed.. Campinas: Papirus, 2000.
RODRIGUES, Adyr B. Turismo e espaço rumo a um conhecimento transdiciplinar, São Paulo: Hucitec 1997. Apostila

Silva, Elsa Peralta da, Patrimônio e Identidade. Os desafios do turismo cultural, ICSP. UNIVERSIDADE DE LISBOA, 2005.

SILVA, Fernando Fernandes da, O Patrimônio Cultural de Humanidade como tema de Direito Internacional Público. São Paulo: Edusp, 2003. Apostila.

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31/12/2009


A IMPORTÂNCIA DAS VISITAS TÉCNICAS



A educação possui uma das relações mais antigas e importantes com os homens. Sua formação passou por várias alterações no decorrer dos tempos. O pós-modernismo imprime uma característica peculiar ao método de ensino-aprendizagem ao transpôr as barreiras da sala de aula, dinamizando o processo educativo.
Diante do crescimento da globalização, as instituições de ensino estão em fase de transformação, utilizando-se de outros meios para transmitir as informações básicas e necessárias de cada disciplina para seus alunos.



Uma disciplina requer um corpo teórico para que possa ser ensinada. Desse ponto de vista, o turismo é uma atividade que está em crescimento no âmbito econômico e profissional, configurando-se como a atividade marcante do século XXI.




O Turismo Pedagógico representa a oportunidade de explorar pedagogicamente a relação homem-espaço nas mais diferentes perspectivas de análise do conhecimento humano (geográfico, físico, biológico, ecológico, entre outros) numa abordagem interativa e multidisciplinar. Essa atividade está em crescimento, observa-se que algumas instituições de ensino vêm adotando esta abordagem na integração de conteúdos curriculares em seus projetos pedagógicos. Diante desse novo recurso, com caráter inovado e rico no processo de transmissão do conhecimento socialmente adquirido, observa-se que pode ser aplicado a qualquer grau de escolarização.

Sua eficácia está comprovada, uma vez que os alunos aprendem muito mais e compartilham com colegas o aprendizado e experiência. Segundo pesquisa publicada na Revista Ensino Superior (2003) verifica-se que:

1) Os estudantes desejam planos de estudos que tenham aplicação prática em seu trabalho, com conteúdos que contribuam para seu êxito profissional. Em relação aos professores, desejam aqueles que realmente estejam atuando e não aplicando teorias ultrapassadas;
2) Desejam uma educação eficiente e aprender o que necessitam aprender;
3) Desejam uma estrutura de ensino que possa maximizar a aprendizagem e não planos curriculares adaptados.



Enfim, o turismo pedagógico contribui para o melhor desempenho dos alunos, uma vez que propicia a vivência e o aprendizado sobre o mercado que está inserido e facilita que se tornem profissionais conscientes e atentos para a realidade atual.
Tal prática permite a interação com o meio, absorção dos conhecimentos de forma ampla, interação com outros profissionais, professores e colegas assumindo um papel importante na formação profissional.



Sua importância inquestionável é reforçada ao promover um confronto entre a teoria passada em sala de aula e o que realmente está acontecendo na realidade, dando oportunidade ao aluno de questionar, buscar alternativas e avaliar.
Nela o aluno é muito mais que um mero espectador, é alguém que faz parte do contexto, podendo propor mudanças para tal realidade.
E, é essa visão que permite à ele tomar consciência da profissão escolhida.

Em suma, o papel da escola como simples transmissora de conhecimentos, deve extrapolar-se, direcionando a prática real na educação global do aluno. Dentro desse contexto o turismo é um elemento de fundamental importância, tendo no turismo pedagógico subsídios para dinamizar o processo de ensino-aprendizagem em todos os níveis de escolaridade.



Esse nicho de mercado encontra-se em evidência, ao passo que se verifica uma quantidade considerável de profissionais, tanto das instituições de ensino quanto das agências de viagens em migrarem para essa atividade sem um estudo e qualificação necessária para atuarem nesse segmento.


?Se mudança é apenas outra palavra para aprendizado, então, as teorias de aprendizagem deveriam ser também teorias de mudança? (HANDY apud TRIGO 1998).

Texto: Adriana Melo (dricamelo13@gmail.com)
Fotos: Ana Carla Nunes (festasdabahia@festasdabahia.com)
Revisão textual: Elenise Evaristo (niseevaristo@yahoo.com.br)


LEITURAS RECOMENDADAS:

ANSARAH, Marília Gomes dos Reis (organizadora).Turismo: como aprender, como ensinar2. São Paulo: Senac, 2003.

CALIGHER, Sandra Bianca. Turismo Pedagógico. São Paulo,1998. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Turismo) ? Faculdade Ibero-Americana,1998.

CAMPOS, Luiz Cláudio; GONÇALVES, Maria Helena. Introdução a turismo e hotelaria. Rio de Janeiro: Senac Nacional,1998.

LAGE, Beatriz Helena Gelas; MILONE, Paulo César (organizadores). Turismo: teoria e prática. São Paulo : Atlas, 2000.p.71-79.


SEVERINO, Antônio Joaquim. Prefácio. In: GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas. São Paulo : Ática, 1995.p.11.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. A sociedade pós-industrial e o profissional em turismo. 4 ed. Campinas, SP: Papirus, 1998.

_________________. (organizador). Turismo: como aprender, como ensinar 1. São Paulo: Senac,2003.

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29/11/2009


A origem das Festas na Bahia está associada á nossa colonização. Cada etnia que por aqui se findou no descobrimento do Brasil, deu sua contribuição ao fortalecido legado cultural que constituímos em quinhentos anos de existência. Edilene Souza Couto analisa que:

Boa parte das festas do calendário baiano, principalmente as de origem católica, foi trazida pelo colonizador português, ou seja, chegaram com a colonização. Os lusitanos também trouxeram o entrudo, festa de rua que deu origem ao Carnaval de Salvador. Com os negros africanos, vieram o culto ancestral dos orixás e as festas dos terreiros de candomblé que, a depender da nação (Ketu, Gegê ou Angola), possuem seu calendário próprio de celebrações. O samba-de-roda, a capoeira e o maculelê, duas espécies de dança-luta, também se incorporaram às festas populares como contribuição dos negros escravizados. Os índios já promoviam as festas de caboclo que, com o passar do tempo, misturaram-se às homenagens aos deuses africanos. (CORREIO DA BAHIA,2006,)



No entanto, esta miscigenação cultural desperta um olhar diferenciado do visitante a cerca do nosso comportamento. Eles acreditam que esta reunião de sagrados e profanos dá um caráter único às celebrações e isso justifica o número de turistas que recebemos no carnaval, na Lavagem do Bonfim, na Festa de Iemanjá, uma vez que estes cultos ocorrem em períodos favoráveis para o turismo no Estado.



O que de fato ocorre é o misticismo que existe no Estado e estes predicados que foram atribuídos aos festejos e que transitam pelo campo do exótico, do mistério resultando nas festas de rua feitas para o povo são elementos que permitem o reconhecimento de nossas festas como atrativos turísticos que movimentam a economia do Estado, e permitem que a Bahia ocupe destaque e seja conhecido como ?Terra de Magia?, de povo alegre, como define Jorge Amado:

Roma Negra ? já disseram dela, Mãe das Cidades do Brasil, portuguesa e africana, cheia de histórias lendárias, maternal e valorosa. Nela se objetiva como na lenda de Iemanjá, a deusa negra dos mares, o complexo de Édipo. Os baianos a amam como mãe e amante, numa ternura entre filial e sensual. Aqui estão as grandes igrejas católicas, as basílicas, e também os grandes terreiros de candomblé. (1981, p. 33)



O que se sabe é que muitas são as festas populares da Bahia: festas religiosas católicas, negras ou misturadas, festas de ruas e festas patrióticas. Todas elas possuem um caráter diferenciado e uma experiência única para quem as vivencia. Geraldo Leal (2000, p. 19) faz uma breve analise sobre nossos festejos: ?Os índios já tinham sua cultura própria, os negros nos legaram diversas modalidades rítmicas, e religiosas. A criatividade permitiu o desenvolvimento das nossas festas populares?.



Kátia Matoso (Matoso apud Leal, 2000) retrata o aspecto lúdico das festas: ?Tudo era pretexto para as festas na Bahia, sobretudo em lugares abertos e na rua?.
No entanto, uma análise do povo e dos seus costumes é feita por Pierre Verger:

?Poucas cidades pode haver tão originalmente povoada como a Bahia. Se não soubesse que ela fica no Brasil, poder-se-ia sem muita imaginação tomá-la por uma capital africana, residência do poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros.? (VERGER, 1981, p. 145)

O caráter religioso sempre permeou nossos festejos e, com isso, as irmandades foram ocupando espaços de destaque, já que era dada a elas a responsabilidade de organizar as festas e a própria comunidade no qual estivesse inserida. Wethereel define estas Instituições:

Existiam diversas irmandades, associações religiosas cujos membros se acham incumbidos de cuidar dos pobres, algumas dessas irmandades possuem importantes propriedades e empregam os lucros que produzem na ajuda a irmãos mais pobres. Elas incluem pessoas de todas as classes sociais. Em suas procissões como em uma igreja própria, usam uma vestimenta especial ou um uniforme que consiste em geral numa capa de sarja cinza ou branca com uma cruz bordada num dos ombros. (WETHEREEL, 1982, p. 77)



No entanto, uma abordagem mais abrangente acerca de sua importância para a sociedade da época é feita por Sebastião Weber Costa:

As Irmandades tiveram desde as suas origens, um sentido social. Formadas de expressão interetnica, com obrigações de colaboração mútua entre os seus membros.Tudo isso seria para fins múltiplos: desde a compra de alforrias, festejos, pagamentos de Missas, caridade, vestuário, até a possibilidade de um funeral decente. (COSTA, 2002 p. 9)



Luz faz uma consideração mais específica acerca da importância destes grupos religiosos:

A importância das irmandades na história do Brasil, especificamente no que se refere ao nosso legado civilizatório africano, concerne não somente as correntes de libertação da escravidão, constituída pela administração e acúmulo de recursos capazes de obterem cartas de alforria, mas sobretudo da sua luta de ocupação de um espaço social urbano capaz de garantir a coesão grupal necessária a afirmação existencial., a constituição da identidade, dos valores culturais negros em nossa terra. (2006, p. 343)



O interesse da Monarquia e da Igreja Católica nas Irmandades negras era evidente. Acreditava-se que elas permitiriam uma manipulação maior da coroa portuguesa por meio da fé e da religiosidade deste grupo social como destaca Luz:

Para padres com a sagacidade de Antonio Vieira, as irmandades negras poderiam ser instituições que no Brasil poderiam fornecer uma massa de manobra capaz de aumentar o poder eclesiástico frente coroa, ele mesmo foi um dos incentivadores da política capaz de promover a aproximação dos negros com a igreja, autorizando-os a usar colares de conta em homenagem ao Rosário. (2006, p. 346)



Assim, no Brasil, aproveita-se o espaço das irmandades para reconstrução da identidade e da cultura de origem dos negros favorecendo inclusive as relações sociais institucionais africanas. Além disso, era um lugar de coesão grupal, de tomadas de decisão acerca da compra de cartas de alforria e tudo que diz respeito aos direitos dos negros nas sociedades. Uma análise destas instituições novamente é feita por Luz quando aborda que:


Entre o vaivém do chicote do feitor, os padres procuravam atuar no poder do estado do regime escravista, para preservá-lo. Mas desse contexto, soube o negr aproveitar para a reconstrução do seu mundo existencial e social, expandindo os valores civilizatorios africanos ao âmbito das sociedades urbanas nascentes do Brasil (2006, p. 347).

Desse modo, as irmandades quando se uniram ao catolicismo deram origem ao germe da religiosidade brasileira, adaptando a cultura negra à nova realidade que era imposta aos negros, uma vez que essa maneira era a única com a qual poderiam assegurar a manutenção de suas tradições. Estas, no entanto, eram também responsáveis pela manutenção dos festejos e das tradições e até hoje representam um papel de destaque nas celebrações religiosas de nosso Estado.



Voltando ao presente e abordando o calendário de Festas Populares da Bahia, percebe-se que este se trata de um dos mais ricos do Brasil pela mistura entre Santos, Orixás e Caboclos, junto às festas cívicas, a ensaios de blocos e artistas que fazem o carnaval. Esta fusão étnica é responsável por atrair pessoas que, consequentemente, geram renda ao Estado e emprego aos cidadãos. Este cenário é analisado por Edilece Couto:

Não podemos pensar as manifestações culturais, e dentre elas as festas, como imóveis, imutáveis e fadadas ao desaparecimento em função das mudanças da sociedade. Na verdade, as festividades têm um período fixo para que sejam realizadas, mas não são completamente dissociadas do cotidiano, acompanham o desenvolvimento da vida em sociedade. Alguns elementos desaparecem e outros são incorporados. Temos uma tendência a acreditar que a cultura capitalista, principalmente o comércio em torno das festas, leva à descaracterização, mas não acredito nisto. Com o tempo, algumas características são ressaltadas e outras abandonadas. É impossível pensar que as festas teriam que se manter iguais às que eram realizadas há mais de 500 anos. (Correio da Bahia, 2006, p. 20).



Percebe-se que nestes quinhentos anos de Brasil os estudiosos passaram a tratar Folclore e Cultura Popular de maneira equivalente. Não se pode mensurar o quanto isso reflete na cultura dos lugares, sobretudo em alguns que possuem o turismo como uma atividade econômica primordial. Esta fragilidade da cultura popular estimulou o IPHAN a tomar medidas para proteger o Patrimônio Imaterial baiano. Uma delas foi criar regimentos que tombassem as manifestações da nossa cultura popular, assegurando sua manutenção como valor de identidade. Essa valorização tem sido muito positiva e vem provocando discussões ainda mais acirradas acerca da importância da cultura popular e da preservação destes monumentos.



O crescimento populacional, o desinteresse de membros das comunidades em perpetuar estas tradições e as evoluções sociais foram fatores que permitiram a descaracterização ou até em casos mais extremos, a extinção de nossas festas. A evolução das sociedades permitiu que classes privilegiadas e com maior poder aquisitivo ditassem o que é ou não interessante festejar. Com isso, a cultura popular das classes mais simples se perdeu e temos como exemplos principais dessa perda em Salvador a Festa de Nossa Senhora do Ó em Paripe, o Dois de Julho nas Ruas da Península Itapagipana, Cortejos dos Confetes e Dança das Vassouras no carnaval, a Festa Profana de Nossa Senhora da Penha na Ribeira. Estas são algumas manifestações que não resistiram a fatores como os que acima foram mencionados e desapareceram do nosso calendário de Festas Populares.



O que não se pode negar é que as Festas dão oportunidades do tradicional ser repetido de maneira lúdica e, assim, possibilitar que vivencias e modos de vida perpetuem-se. Cabe à nossa sociedade não deixar de atribuir valores de identidade e resgatar a importância do significado da cultura popular para as novas gerações, já que somos todos responsáveis pelo o que pode ser deixado como legado no futuro. Paralelo a isso é imprescindível exigir que o poder público (que atua nestes eventos desde os remotos períodos coloniais) não deixe de investir na memória oral, incentivando manifestações desse tipo por meio de projetos e de iniciativas que garantam sua permanência. Mas é importante enfatizar que esse incentivo não deve acontecer visando qualquer tipo de propaganda política ou benefícios ao governo, pois, dessa forma, os festejos perderiam suas características originais e ganhariam outra conjuntura dentro do contexto cultural de nossas sociedades.

Texto e Fotos: Ana Carla Nunes
Revisão Textual: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)


LEITURA RECOMENDADA:

ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945. p

LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.
PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2001

VERGER, Pierre. Notícias da Bahia: 1850. Salvador: Corrupio, 1981. 237 p. (Baianada, 1).

VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.

VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.

WETHERELL, James. Brasil: apontamentos sobre a Bahia. Salvador: Banco da Bahia, [1972]. 149 p

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02/11/2009


O folclore brasileiro é cheio de riquezas porque se baseia nas diversas heranças culturais que adquirimos desde o período de nossa colonização. Em palavras de Luis da Câmara Cascudo o Folclore e a Cultura Popular se entrelaçam quando o autor define que: ?O folclore é a cultura do popular tornada normativa pela tradição?. Compreender esta Cultura popular é uma maneira de manter viva as raízes de nosso povo, logo Cascudo afirma que:



Nem tudo o que é popular é folclórico. Para um costume ser considerado folclore é preciso ter origem anônima, ou seja, não se saber ao certo quem o criou. Deve ser aceito e praticado por um grande número de indivíduos. Também precisa resistir ao tempo e ser passado de geração em geração. A transmissão? De boca em boca. Ao pé do fogo, na beira do fogão, nos encontros sociais, na missa, enfim, no dia-a-dia do nosso país.

Alguns pesquisadores percebem diferenças entre Folclore e Cultura popular. No entanto, Carlos Rodrigues Brandão comenta:

Eles não são iguais, e sob certos aspectos, podem ser ate opostos. Não são ouças as pessoas que acreditam que os dois nomes servem a mesma realidade, apenas folclore é o nome mais ?conservador? daquilo de que cultura popular é o nome mais progressista.



Percebemos, assim, que a Cultura Popular (ou patrimônio imaterial da cultura) existente nas festas e no folclore, corre o risco de ser fragmentada, porque nem sempre o que é identificado ou escolhido como elemento constitutivo das tradições é recriado. Isso ocorre porque os moldes dessa reprodução são ditados pelas elites cultas, e esta nova roupagem é digerida e devolvida aos cidadãos transformando nossas manifestações culturais em produções empresariais, sobretudo quando estas estão ligadas à atividade turística.

A cultura popular torna-se frágil diante da evolução social e da interferência do capitalismo neste processo de reconstituição dos valores. É para isso que Antonio Augusto Arantes chama a atenção quando cita:

Por outro lado, essas maneiras de pensar a cultura pressupõem ou que ela seja passível de cristalização, permanecendo imutável no tempo a despeito das mudanças que ocorrem na sociedade, ou, quando, muito que ela esteja em eterno ?desaparecimento?. Como sugerem os nossos exemplos, cultura é um processo dinâmico; transformações (positivas) ocorrem, mesmo quando intencionalmente se via congelar o tradicional, para impedir a sua ?deteriorização?. É possível preservar os objetos, os gestos, as palavras, os movimentos, as características plásticas exteriores, mas não se consegue evitar a mudança de significado que ocorre no momento em que se altera o contexto em que os eventos culturais são produzidos.



O que não se pode negar é a fragilidade do Folclore e da Cultura popular diante dos processos de evolução sociais. O que se propõe é que a valorização do folclore e o reconhecimento da importância das manifestações populares sejam re sgatados e mantidos sempre, com o máximo de originalidade já que eles formam nosso repertório cultural e estabelecem a continuaçãode nossa memória. Além disso, Folclore e Cultura popular são os dois pilares responsáveis por ligar o passado, o presente e o futuro por meio de informações e comportamentos de valores culturais que nos diz quem somos e, possivelmente, assegurar o desenvolvimento das sociedades mais rudimentares por meio da preservação dos seus saberes e fazeres.

A manutenção das diversas culturas ao longo do tempo permite uma reprodução coletivizada e uma maior compreensão a respeito dos povos e nações. As diferenças étnicas, culturais e sociais tornam-se menores diante da memória oral contida no domínio público existente no Folclore, nas festas e na Cultura Popular. Entende aqui por Cultura popular a manifestação das classes subalternas, de caráter ingênuo e não dominante que aparece com o a única maneira de diminuir as diferenças sociais e o preconceito que existe entre cultura erudita e popular.

Seu desaparecimento apaga uma parte da história de povos, por este motivo é que não devemos tratá-la como um elemento pitoresco, mas como um elemento que deve ser levado a sério, sem separações ou pré-conceitos, porque este é representado por meio da memória coletiva como enfatiza Barreto:

A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja a busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.









*Texto e Fotos Ana Carla Nunes

Revisão de texto: Beatriz Badim de Campos (biacampos@globo.com)



LEITURAS RECOMENDADAS:


BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p

BRANDAO, Carlos. O que é Folclore?. São Paulo: Brasiliense, 1981

CARNEIRO, Edson. Dinâmica do Folclore. São Paulo, Civilização Brasileira, 1965, 188p

CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro: A-I. 3 ed. Brasília: INL, 1972. vol. 1 . (Dicionários especializados, 3).

Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 12h21
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20/10/2009


Atualmente, o turismo cultural vem sendo discutido, por permitir mudanças nas motivações das viagens e no olhar do visitante em relação aos roteiros. Esse segmento consolidou-se no Brasil por apresentar condições favoráveis a sua prática.

De acordo com o Ministério do Turismo (2008), o turismo cultural ocupa o terceiro lugar nas preferências dos visitantes no Brasil, perdendo apenas para o Ecoturismo e o turismo de aventuras.

Voltando na história percebe-se que esta busca pelo conhecimento, no entanto, já aconteceu em outro momento da humanidade, mais precisamente no século XVI e na própria formação social de nossas civilizações. Magnavita (2007) explica que: No Século XVI começa o incentivo a viagens particulares ? não oficiais. Escolas passaram a organizar viagens para seus alunos, acompanhados de um professor, como forma de complementação de estudos. Não se pode falar propriamente em turismo, mas, sim, em tours, viagens de ida e volta, para alunos de classes privilegiadas, onde só participavam homens. Como não trabalhavam os jovens aristocratas, viajavam quando queriam e podiam. Em geral, tinham a duração aproximada de três anos.

A busca cultural e a troca de valores sempre foram fatores que determinaram as viagens nos séculos passados, sobretudo no século XVII, e isso foi tornando-se um hábito das classes privilegiadas da Europa, até os dias atuais. Não se pode negar a importância desse período para firmação do Turismo Cultural na Europa, onde as viagens eram feitas pela necessidade de autoafirmação social ou na busca por conhecimento, a cerca dos roteiros que permitissem maior contato com a cultura e história das civilizações.

Atualmente no Brasil, sobretudo nas cidades históricas, o turismo cultural utiliza da educação patrimonial para se desenvolver, possibilitando a preservação do patrimônio material e imaterial dos espaços a serem visitados, contribuindo assim para que um novo olhar de preservação permita que novas gerações conheçam o passado das comunidades. Aliado a isso propõe que políticas de interpretação do Patrimônio sejam aplicadas com eficiência nas localidades, onde é possível praticar o Turismo Cultural, assegurando que a preservação aconteça por parte dos visitantes e moradores:

(...) antes de ensinar uma comunidade a preservar (o patrimônio) é necessário dar-lhe condições dignas de vida. Ou seja, de nada valerá tombar e preservar um patrimônio sem antes conscientizar a comunidade local da relevância de se conservar aquele bem em prol das gerações futuras. Um dos propósitos da política do patrimônio cultural é não apenas a apropriação de bens culturais em nome da ?nação? (...), mas a devolução desses bens aos seus autênticos proprietários: as comunidades locais.

Assim, a educação patrimonial seria uma alternativa eficaz para preservação dos bens, com o desenvolvimento do turismo Cultural nas cidades brasileiras, Este cuidado, e esta reunião de idéias aliadas a um planejamento nas diversas camadas (setores públicos e privados), podem vir a desenvolver um olhar de preservação ainda maior tanto para os visitantes quanto para a comunidade a ser visitada, como afirma Reijane Mira:

(...) A atividade turística tem sido responsável, especialmente através do turismo cultural e do ecoturismo pela criação de uma mentalidade preservacionista do patrimônio. Esse papel, no entanto, tem sido bem recente, já que o turismo foi também o responsável pela degradação de muitos destinos.

Esta noção de preservação tem garantido que nos últimos anos a educação patrimonial venha obtendo visibilidade em diversos setores. Com isso a atividade turística no Brasil que, em outrora, era comercializada apenas sob o aspecto da valorização dos patrimônios naturais, hoje recebe a preocupação necessária dos órgãos responsáveis por cultura, patrimônio e turismo.

Esta junção de turismo e cultura, dá a possibilidade de mudar os roteiros de visitação e, de certa forma, o perfil de visitantes, que se deslocam em busca de novas motivações. Aliás, este diferencial, segundo a Embratur, define a atividade cultural como ?da motivação do turista em deslocar-se, especialmente com a finalidade de vivenciar aspectos e situações, que podem ser particularidades da cultura.? Entretanto o conceito trazido pelo Ministério do Turismo é amplo e determina que:

Turismo Cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura

Esta relação trazida pelo turismo cultural permite que os visitantes desloquem-se com a motivação de enriquecer-se culturalmente, seja através da história dos lugares ou da contemplação e significado dos patrimônios ou dos festejos dessas localidades. No Brasil, por exemplo, temos como roteiro cultural a cidade de Ouro Preto (MG), que foi reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pela importância e imponência do seu acervo arquitetônico e artístico barroco, com destaque para as criações de Aleijadinho e Mestre Athaíde.

A troca de conhecimento que estas viagens permitem está novamente associada à relação entre turismo e cultura, onde quem sai lucrando é a comunidade receptora, que passa a ser um atrativo turístico; já que algumas políticas públicas de planejamento e investimento começam a ser direcionadas para o espaço. O mesmo tem sua memória (geralmente quinhentista, e formada por três etnias que compuseram nossos legados culturais) devidamente preservadas e repassadas e o melhor, ela começa a ter a noção exata de sustentabilidade através da prática do turismo, possibilitando a geração de renda e emprego, que começam a acontecer com o aparecimento destes visitantes.

* Texto e Fotos de Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Elenise Evaristo (
www.riquezasdointerior.blogspot.com)

LEITURAS RECOMENDADAS:
BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000
DELUQUI, Mônica. Cultura Brasileira e Bens Imateriais. n.8. 2007. Disponível em
http://www.fatorbrasis.org/node/42 Acesso em 12/10/2007
PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. 2ed.. Campinas: Papirus, 2000
TURISMO cultural novos viajantes novas descobertas Brian Goode) .Apostila
TURISMO. Bahia Analise & Dados. Salvador: SEI. Disponível em:
http://wi.sei.ba.gov.br/publicacoes/publicacoes_sei/bahia_analise/analise_dados/pdf/turismo/pag_169.pdf .Acesso 12/11/2007

Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 14h37
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18/10/2009


Cultura Popular, Festas e Folclore podem estar em uma mesma base conceitual porque esta tríade apóia-se nos legados culturais de indivíduos, nos mitos e lendas que são repassados e que são verídicos ou não-verídicos, mas que encontram suas principais matrizes no empirismo ou conhecimento Popular.

Esta reunião de saberes e viveres do povo trazido pelo Folclore e que é utilizado basicamente para determinar a cultura das classes menos favorecidas, está diretamente associada ao próprio conceito de Cultura Popular, como define Edison Carneiro:

Entende-se por Folclore um corpo orgânico de modos de sentir, pensar, agir peculiares as camadas populares as sociedades civilizadas. Alguns folcloristas entendem que o campo do folclore a todas as sociedades até mesmo as primitivas, entretanto a existência de graus diferentes da mesma cultura é necessária para caracterizar o fenômeno, embora peculiares esses modos de sentir, pensar e agir não são exclusivos do povo. Se as camadas populares integram, em conjunto a sua vida cotidiana, toda sociedade se serve deles, fragmentariamente, sob esta ou aquela forma.

Com o crescimento das sociedades evoluídas graças ao avanço das tecnologias, as tradições populares aos poucos foram se perdendo. Isto se deve ao novo modo de vida urbano, que não tem por costume cultivar ou cultuar esses legados que são considerados vulgares pelas classes de maior prestigio econômico em nossa sociedade, e que atualmente ditam as regras da nossa cultura, e que de modo geral acabam não valorizando os costumes que são adquiridos por meio de conversas, hábitos, crenças e costumes e representados com o auxílio de diversas modalidades de expressão (artesanato, dança, culinária, crendices, formas de se vestir, brincadeiras, jogos, mitos, lendas, utensílios diversos, etc.). Todos esses valores têm um ponto em comum: são transmitidos de geração em geração.

Este cuidado é uma maneira de manter o passado, dando continuidade as suas tradições e gerando oportunidades para que outros povos conheçam a nossa própria cultura por meio do que apresentamos como parte de nossa história. Essa cultura pautada na vivência e observação, mas que nem sempre é registrada em livros. É o que cometa Edison Carneiro:

A experiência humana que se disciplina em cultura, constitui um continuum de que participar tanto o conhecimento empírico do povo como o conhecimento cientifico dos letrados. A sua existência na mesma sociedade faz com que ambos os tipos de conhecimento se vivifiquem mutuamente. O fato de terem uma origem comum ? a cultura universal sintetizada na civilização greco-romana propicia a circulação dessa corrente vivificadora.


Com a diversidade Cultural do Brasil oriunda da nossa colonização miscigenada entre índios, brancos e negros, os patrimônios imateriais de nossa Cultura tornaram-se vastos. Esta junção de etnias fortaleceu todos os produtos culturais existentes em nossas tradições, permitindo uma fusão única e bastante expressiva. Na Bahia, pode-se observar que estas manifestações adquirem um caráter diferenciado das manifestações populares existente em todo o país.
Esta diversidade cultural, no entanto, pode ser denominada como tradições, folclore, ou cultura popular e seu conceito é muito mais amplo, já que estas manifestações constroem o legado cultural de uma sociedade e, por que não dizer, da própria nação. Além disso, essa diversidade de cultura valoriza determinadas localidades, como a Bahia, um dos Estados de maior representatividade cultural do país.
(Foto: Estudantes com Zilda Paim, historiadora do Recôncavo Baiano)

As sociedades atuais, contudo, perderam o lastro que as tradições dos povos dão a toda uma sociedade, porém uma preocupação mais maciça acerca da manutenção dos bens intangíveis de nossa cultura passou a ter visibilidade devido à necessidade de se conservar o patrimônio histórico-cultural para a preservação da identidade dos povos. Os legados passaram a ter uma proteção fundamentada a exemplo do que já é feito desde o ano 2000 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) O processo de tombamentos e registros no Programa Nacional de Patrimônio Imaterial (PNPI) viabiliza a identificação, o reconhecimento e salvaguarda a dimensão do patrimônio imaterial da cultura.

Este programa trata-se de um estatuto que avalia o bem e o registra segundo sua característica e categoria. Desde a criação do PNPI, alguns registros já foram feitos em alguns patrimônios existentes no país, a exemplo do Círio de Nazaré, O Oficio das Baianas de Acarajé, O Samba de Roda do Recôncavo e O Frevo. Em alguns casos, estas expressões culturais são tombadas e reconhecidas como Patrimônio Imaterial e esta ação torna evidente que uma preocupação estética passou a ocupar espaços nas mesas de discussão governamental, a conseqüência disso, permitirá que em breve as tradições sejam mantidas, os legados culturais eternizados, e as tradições culturais superem os capitalismos, as evoluções sociais e globalizações, que nem sempre favorecem para que perpetuem-se e sejam e repassadas as novas gerações.

* Texto e fotos de Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)
Leituras Recomendadas:
CARNEIRO, Edson. Dinâmica do Folclore. São Paulo, Civilização Brasileira, 1965
ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo, Brasiliense, 2004

Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 06h46
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12/10/2009



Os dicionários de Língua Portuguesa tratam a cultura como um conjunto de costumes, saberes adquiridos e ensinados que marcam a existência dos povos permitindo a manutenção e o registro das diversas sociedades existentes no mundo. Elas são representadas por meio de danças, lutas, tradições, arquitetura, povos e é definida como erudita e popular, mas o conceito pode ser mais complexo. Esta amplitude do conceito de ?Adicionar imagemcultura? permite que alguns estudiosos a definam também como Patrimônio Cultural. A exemplo disso recorro a Pelegrinni para tal conceituação:

O significado de Patrimônio Cultural é muito amplo, incluindo outros produtos do sentir, do pensar e do agir humanos ? inscrições de povos pré históricos (geralmente feitas em cavernas mas também em local a céu aberto) sítios arqueológicos, e objetos neles pesquisados, esculturas, pinturas, textos escritos (feitos á mão, as vezes exemplares únicos, ou impressos e portanto de reprodução mecânica mas que podem assumir importância especial) variadas peças de valor etnológico, arquivos e coleções bibliográficas, desenhos de sentido artístico ou cientifico, peças de estudos da ergologia de um povo ou de uma época, e assim por diante.

À medida que as sociedades evoluem, os conceitos de cultura vão tornando-se mais amplos e mais diversificados e isso se dá pelo mecanismo adaptativo.

É por meio do mecanismo adaptativo que podemos perceber que a própria cultura é capaz de responder ao meio em que se constrói, de acordo com a mudança de hábitos. Uma outra característica importante é o seu mecanismo cumulativo, ou seja, a cultura vai perpassando as gerações, acumulando hábitos de cada uma e transformando-se, perdendo e incorporando aspectos que possam adequar-se a sua sobrevivência. Ao longo dos tempos percebemos que a cultura desenvolve-se e é dinâmica já que sofre mudanças e alterações. Em alguns casos, as concepções sobre cultura são inovadas, inventadas, criadas e aculturadas, ou seja, a cultura, à medida que ultrapassa séculos e gerações, mantém e garante a continuidade dos povos, permitindo que outras tradições misturem-se e as mudanças culturais e sociais aconteçam, a partir deste contato e desta influencia de um povo em relação a outro.

Para que esta influencia de outras culturas não ocorra, ou mesmo que ocorram não criem impactos negativos nas tradições de um povo, políticas públicas em prol da preservação dos patrimônios culturais de determinadas localidades devem ser criadas por parte dos órgãos que são responsáveis pela manutenção da cultura (IPHAN, UNESCO, IPAC, MINISTÉRIO DA CULTURA) e estas políticas devem estar aliadas à preservação destes legados culturais.


Adquirir essa consciência que chamamos de ?educação patrimonial? permitirá que a manutenção do patrimônio material e imaterial seja garantida em razão do processo contínuo do tempo e esta manutenção não privará as novas gerações de dados importantes para a compreensão dos fenômenos seculares ocorridos nas comunidades que possuem esta representação da sua própria história e cultura. Percebe-se que as evoluções sociais e culturais e as transformações sofridas nas sociedades modernas e até primitivas por conta de uma série de acontecimentos históricos, fizeram com que os legados, ou a memória coletiva, se tornassem transmissões culturais entre os seres, por meio de vínculos com o seu passado permitindo o resgate de nossa identidade.

À medida que a manutenção das características é repassada do passado para o futuro sem sofrer nenhuma interferência ou alteração, os valores culturais são mantidos. Por isso é tão importante garantir a conservação destas marcas do nosso passado, dando crédito e apoio à revitalização de patrimônios ou o resgate destes legados culturais que no início do texto chamamos de ?cultura?. Se bem realizadas, essas ações de cuidado ao patrimônio cultural material e imaterial permitem aguçar a memória coletiva e esta, segundo Barreto ?desencadeia, o processo de identificação do cidadão com sua história e sua cultura.? Isso tudo em meio à globalização e à aculturação que sofremos cotidianamente, seja por meio do turismo ou das classes superiores da nossa sociedade que ditam o que é ou não tido como tradição, é muito importante para a auto-afirmação de nossa identidade étnica, religiosa, folclórica e cultural.
Ana Carla Nunes

REFERÊNCIAS Á SEREM CONSULTADAS:
ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo: Brasiliense, 2004.
PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. 2ed.. Campinas: Papirus, 2000.
BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p

Texto e Fotos: Ana Carla Nunes
Revisão textual: Beatriz Badim (biacampos@globo.com) Elenise Evaristo (www.riquezasdointerior.blogspot.com)

Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 21h00
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05/10/2009






O Grande Sertão, sempre em prol da valorização humana e cultural, e sobretudo preocupada com a responsabilidade social da casa, promoveu no dia 05/10 a segunda edição do Miau Solidário 2009.


O evento reuniu cerca de 410 crianças, de 11 Instituições beneficentes (Apae, Gacc, Caasa, Amac, Ibcm, Instituto de Cegos, dentre outras) e mais 100 parceiros. Isso só foi possível graças ao gesto humanitário das pessoas envolvidas, dentre elas artistas, fornecedores do restaurante, as empresas Impacto Visual, Frente e Verso Comunicação, Happy Town, Disali, etc. funcionários das instituições relacionadas, assim como a parceria constituída entre o Restaurante Grande Sertão com o Salão de Beleza infanto juvenil Miau, idealizador do evento.


Além das empresas estiveram presentes cerca de 100 artistas, dentre eles Alexandre Guedes, Bel Borba, Grupo Folclórico Topázio, Tio Paulinho, o Palhaço Ivo, e outros nomes, cujo o objetivo foi elevar a auto-estima de crianças com alguma dificuldade ou necessidade especial. Além disso, a presença desses artistas garantiu não só um dia de lazer e diversão para os pequenos, mas uma grande ação social em que todos puderam interagir e comemorar antecipadamente o Dia das Crianças.

Após o almoço preparado pelo Chef Ivo Sampaio, que serviu as crianças com o que há de melhor na culinária regional, houve entrega de presentes, brindes, lanches, brincadeiras e animações diversas. Essas ações contribuíram para fechar com chave de ouro mais um ano de sucesso absoluto do evento.



Segundo o Administrador Wellington Santos: ?Ações como estas permitem que outras instituições possam de alguma forma, atuar efetivamente em prol da responsabilidade social, contribuindo com isso para afirmação e inclusão destas crianças em nossa sociedade?



Assim, o Dia da Criança no Grande Sertão foi antecipado e o da responsabilidade social foi novamente revivido, mantendo o que de melhor existe no espaço: alegria, simpatia, cordialidade, respeito as diferenças e, sobretudo, uma atmosfera única e contagiante que só existe nele.

Texto e Fotos: Ana Carla Nunes
Revisão textual: Beatriz Badim
Colaboração: Frente e Verso Comunicação Integrada

Maiores informações: www.grandesertao.com.br

Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 20h48
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14/09/2009




O cordel, tradição européia surgida no Renascimento, veio ao Brasil, há mais de cem anos, com a chegada dos Portugueses e, desde este período, recebeu tanta influência regional a ponto de algumas pessoas imaginarem que este saber nasceu no Nordeste do país. Esta imagem foi se estabelecendo com as contribuições de vários poetas nordestinos, principalmente de Catulo da Paixão e Rodolfo Cavalcante. Atualmente, o cordel possui grande sucesso e reconhecimento artístico por estudantes e pesquisadores mas, sobretudo, pelos amantes e apreciadores da cultura popular.











Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 15h59
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31/08/2009




A Vitória, bairro tradicional de grandes mansões do Séc. XIX e prédios do Séc. XX de alto luxo possui uma bela vista para a Baia de Todos os Santos. A construção de seu largo é datada de 1530, onde abriga a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, uma das mais antigas do Brasil, iniciada em 1534 pelos jesuítas e concluída em 1552, sofrendo reformas em 1666 e 1809.



Escrito por userID: 1022889720175firstName: Ana Carla às 13h53
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